sábado, 3 de outubro de 2026

Cirurgia

Apesar de meus quase 70 anos de vida somente recentemente me vi pela primeira vez num centro cirúrgico na condição de paciente. Fui fazer uma cirurgia de desvio de septo nasal, ou seja, a popular septoplastia. É um procedimento seguro, de baixo risco e pequena complexidade, tudo por via endoscópica, totalmente por dentro do nariz, sem cortes externos ou cicatrizes.

 

(Parênteses: anos atrás, em Porto Velho, quebrei o úmero e a primeira avaliação foi de que seria necessária uma cirurgia. Fiquei internado, jejum, risco cardíaco, mas uma avaliação posterior descartou a operação. Fiquei 42 dias com o braço numa tipoia, e pronto).

 

Cheguei para a internação, confesso, um tanto ansioso, pois já sabia que haveria uma sedação inicial, seguida de anestesia geral e intubação, o que, sendo leigo no assunto, me deu a impressão de uma coisa perigosa. Porém, fui muito bem recebido pela equipe profissional, tantos os médicos quanto as enfermeiras, e depois de uma descontraída conversa inicial (toda anestesista é meio maluquinho?) só me lembro de acordar quando tudo já havia sido feito.

 

(Nas minhas elocubrações, imaginei que poderia ter uma experiência tipo aquelas de “quase morte” e voltaria com um livro de autoajuda que venderia milhares de exemplares com o relato do meu encontro com Deus e outros seres divinos. Só que não. Dormi igual a uma pedra, até porque a anestesia geral não é um sono natural, mas induz a um estado de inconsciência controlada com total ausência de memórias).

 

Vida que segue. Me senti um pouco fraco e suando frio, talvez por conta de ter ficado mais de 12 horas em jejum, logo eu, que sou um glutão nato. Alimentado, fiquei umas horas em observação e à tarde recebi alta. Vinte e quatro após estou em casa, tendo que ficar uns dias em repouso, medicado e fazendo constantes lavagens do nariz com soro fisiológico. Quase nenhum sangramento. Trinta dias sem esforço físico intenso (tchau, academia).

 

Meus agradecimentos ao Dr. Bruno Caliman (otorrino), ao Dr. Wellington (anestesista), à Flávia (instrumentadora cirúrgica) e também a toda a equipe profissional do hospital da Unimed. “Tá tudo muito bom, tá tudo muito bem”, cantava a extinta banda Blitz, mas na atual existência espero essa que tenha sido a primeira e última experiência cirúrgica da minha vida. A gente ficar fora do ar momentaneamente, mesmo que num ambiente controlado, não me parece que seja uma coisa para se repetir.

 

Cuidemos, pois.


terça-feira, 22 de setembro de 2026

Tentações

 

Um dos livros mais interessante que li recentemente é Cartas de um diabo a seu aprendiz, de C.S. Lewis, mais conhecido por ser também o autor de As crônicas de Nárnia, série de fantasia clássica que deu origem a uma franquia de três filmes, e cuja sequência cinematográfica será lançada mundialmente em fevereiro de 2027.

 

Cartas... foi publicado em 1942 e faz uma sátira, através de 31 correspondências fictícias trocadas entre um demônio experiente e seu sobrinho aprendiz, ao conceito do que é mal ou perverso, subvertendo a lógica de que os grandes problemas da humanidade se concentram em governos corruptos, ditadorezinhos de republiquetas ou traficantes, assassinos e bandidos de todas as matizes.

 

O texto demonstra que, na realidade, às vezes as pessoas se colocam dentro de infernos particulares quando se envolvem em distrações errôneas (por exemplo, apostas ou pornografia), nos atritos domésticos e nas pequenas irritações do cotidiano. Para Lewis, essas são as táticas mais eficazes usadas por Satanás e seus asseclas, atingindo o ser humano em suas fraquezas, vaidades, orgulho e inconstâncias de comportamentos. Nem sempre são pecados escandalosos ou grandes maldades que pesam nas consciências.

 

Pequenas sutilezas e falta de atenção podem levar homens e mulheres por veredas perigosas, que passam desapercebidas, dando à ilusão uma aparência de realidade. Diz o escritor: “O mais seguro é o caminho que leva ao inferno por graus suaves: a encosta suave, macia, sem curvas repentinas, sem marcos sinalizadores, sem beiradas”. E ainda: “Assassinato não é melhor do que jogar cartas, se as cartas servirem para o mesmo propósito”.

 

“Mente vazia, oficina do diabo” é um ditado popular muito conhecido, que resume bem o sentido da obra de Lewis, pois a falta de ocupação facilita bastante o surgimento de pensamentos negativos, ansiedades ou impulsos ruins. Ensina Jesus: “Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; o espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca” (Evangelho de Mateus 26:41).

 

Sempre alerta, pois todo cuidado é pouco.

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Filosofia popular

O jeito que as pessoas falam, a maneira de compreender a vida e o entendimento de situações as mais diversas trazem embutidas visões surpreendentes, umas até irônicas, mas outras profundamente cheias de significados e reflexões, inclusive porque existe aquele famoso ditado: “A voz do povo é a voz de Deus”.

 

Nas festas, no cotidiano e nas crenças populares a reflexão crítica da população faz um contraponto com o saber acadêmico tradicional, buscando usar palavras simples para explicar ideias complexas, sem observância de cânones ou linguagem complicada.

 

Frases que usamos diuturnamente são exemplos marcantes desse conhecimento, como “Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura” (traduz a ideia da persistência), “Quem vê cara não vê coração” (diferença entre a aparência e a essência verdadeira) e “Mais vale um pássaro na mão do que dois voando” (valorização do aqui e agora).

 

Fiz esse arrodeio todo, porém, tão somente para contar um papo cabeça que tive recentemente com um caboclo nortista, daqueles que foram criados com mamadeira de açaí e caldo de tucupi. De acordo com o insuspeito cidadão, na vida só precisamos de duas coisas: beleza e paciência. Obviamente, perguntei o motivo de tal conclusão. A resposta não tardou:

 

- Quando está tudo bem, beleza.

- Quando não está bem, paciência.

 

Nem precisa dizer mais nada, né mesmo?!