domingo, 8 de março de 2026

Tá no lucro

 

O cidadão  já avançado em vivências e experiências, inclusive um matrimônio que não deu certo, mas ainda bem conservado e musculoso, apesar da calva brilhante que ostentava sem preconceito, alimentava uma vontade: conseguir uma mulher para dividir a escova de dentes, além de outras cositas más, até, quem sabe, em momentos de carnal inspiração, fazer um calamengau.

 

Arriscou com uma, arriscou com outra, mas ainda não tinha conseguido ter aquele match poderoso, tipo amor à primeira vista, mesmo que a adolescência tenha ficado para trás faz tempo. Finalmente, após muitos erros e poucos acertos, se encontrou com uma morena cor de jambo, praticamente da mesma faixa etária, que também buscava alguém para compartilhar sonhos e pensamentos.

 

Conversa vai, conversa vem e resolveram juntar os paninhos. Foram para debaixo do mesmo teto. Como se estivessem novamente no pleno vigor dos 20 e poucos anos, transformaram todos os cantos da casa em um ninho de amor. O fogo ardente da paixão laborava com intensidade, mas a idade cobra o seu preço e todo esse ímpeto arrefeceu depois de poucos meses. A rotina se instalou, como é comum acontecer com todos, ou pelo menos a grande maioria, dos casais.

 

Entendeu que tinha que se acostumar com essas regras da convivência a dois quando numa determinada noite, ao voltar para o lar, doce lar após um dia exaustivo de trabalho, percebeu que não havia comida pronta. Reclamou: “Você não fez o jantar?”. Como se fosse uma repentista nordestina que não manda recado, a esperta balzaquiana respondeu na lata:

 

- Até um dia desses você não tinha nem mulher, e agora está querendo jantar! Tá no lucro, meu filho!

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Não gosto de fazer proselitismo político, mas para quem quer entender um pouco o caos institucional em que está o Brasil, com problemas nos 3 Poderes, a jornalista Míriam Leitão, na coluna de hoje (08/03/26) em O GLOBO, intitulada “O caso Master consome o país”, debulha o imbróglio. Recomendo.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Kombis

 

A imprensa inteira repercutiu o presente que Neymar Pai deu para Neymar Júnior: uma kombi super estilizada, cheio de acessórios e mimos dos mais variados, a exemplo da cor original da Volkswagen azul Danúbio, televisão de 43 polegadas, teto solar, acabamento em couro com os nomes da família bordados, volante especial e sistema de som com CarPlay. O veículo, que é o mesmo no qual o então jovem craque era levado aos treinos, tem até nome, Filomena, e está avaliado em 270 mil reais.

 

Me lembrei que na minha infância meu saudoso pai também possuiu uma Kombi. Na verdade, duas. Família grande – casal e mais 4 filhos – acho que era a única opção de algo parecido com um SUV que havia na época, pelo menos dos carros fabricados no Brasil. Na época, salvo engano, morávamos em Guaçuí.

 

Não me lembro bem da primeira Kombi, mas a segunda era metade vermelha e metade branca, com umas cortininhas nas janelas, o que era considerado um luxo. Tinha até cinzeiros. E forro no teto, além de isolamento acústico, porque o motor traseiro refrigerado a ar era bem barulhento. Nela, fizemos uma viagem de férias pelas cidades históricas de Minas Gerais – Ouro Preto, Diamantina, Mariana, Congonhas e Tiradentes. A perua aguentou bem o tranco. Fomos também na Gruta do Maquiné, em Cordisburgo, cidade natal do escritor, médico e diplomata Guimarães Rosa.

 

Nos meus olhos juvenis era tudo uma maravilha. E achei sensacional ficar hospedado em hotéis, o que foi uma novidade sem igual. Muitos anos depois, quando ainda morava em Porto Velho/RO, numa das visitas de papai, alugamos uma Kombi e curtimos boas lembranças, passeando nós seis: eu, ele, minha esposa e três filhas/netas.

 

Se eu já não estivesse com tanta preguiça de dirigir nessas ruas esburacadas (o que muito me incomoda também são os motoqueiros abusados), acho que arrumaria uma Kombi motorhome e daria um rolezinho pelas vizinhanças, junto com meu bem-querer. Quem sabe!

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Avenida

 

Numa manhã dessas, enquanto esperava a minha vez no barbeiro, folheei um exemplar de dias atrás, ou seja, repleto de notícias velhas, do jornal A Tribuna, redação onde tive o prazer de trabalhar em meados dos anos 1970. Me deparei com uma reportagem informando que tramita (ou tramitava, não atualizei a informação) na Câmara de Vereadores de Vitória um projeto para mudar o nome da avenida Dante Micheline, importante via que atravessa a praia de Camburi de uma ponta a outra, para avenida Gerson Camata, político já falecido dos mais conhecidos em terras capixabas, uma vez que foi vereador, deputado estadual e federal, governador e senador.

 

O motivo da pretendida mudança é por conta do suposto envolvimento da família Micheline com o assassinato, após rapto, em 1973, da menina Araceli Crespo, à época com 8 anos de idade. O crime teve repercussão nacional, e serviu de marco para a criação do Dia Nacional de Combate ao Abuso Sexual contra crianças. Os réus – Dante de Brito Micheline, Dante de Barros Micheline e Paulo Helal – foram absolvidos por falta de provas no ano de 1991, em segundo julgamento. O caso voltou à torna após um dos envolvidos, Dante de Brito Micheline, ter sido encontrado decapitado no sítio em que morava na localidade de Meaípe, em Guarapari.

 

Bom, não quero falar especificamente desse assunto doloroso, mas é que me veio à memória um acontecimento ocorrido quando meu pai, o jurista, professor, sociólogo, escritor, historiador e folclorista, Renato José Costa Pacheco, faleceu, em março de 2004. Para quem não sabe, meu saudoso pai era um figura  também relativamente famosa no Espírito Santo. Tanto é que o então governador Paulo Hartung decretou três dias de luto oficial, sem contar outras homenagens em muitos locais (como a Biblioteca Professor Renato Pacheco, na FDV, e outra na FAFIA, em Alegre), além de uma realizada no Parque Moscoso pelo prefeito de então, Luiz Paulo Vellozo Lucas.

 

Pois bem.....fui procurado na ocasião pelo ilustre jornalista Rogério Medeiros, velho companheiro de militâncias sindicais e jornalísticas. Ele me disse que conhecia um vereador (desculpe, não lembro o nome) que estava disposto a também propor a mudança do nome da dita avenida Dante Micheline para avenida Renato Pacheco. Levei o assunto para minha mãe e meus irmãos. Ficamos bem honrados, mas nos preocupamos com o transtorno que isso causaria aos moradores e comerciantes ali estabelecidos, com um nome já consolidado por tanto tempo, além de outras alterações que seriam necessárias nos órgãos de fornecimento de água, energia elétrica e tantas coisitas mais. E também preferíamos que ele fosse homenageado com o nome de uma escola, por exemplo, o que efetivamente aconteceu, com a Escola Estadual de Ensino Médio Renato Pacheco (*), em Jardim Camburi. Agradecemos e recusamos.

 

E nas voltas que o mundo dá, me chega uma informação de que existe uma petição popular com mais de 15 mil assinaturas defendendo que a avenida seja renomeada para Araceli Cabrera Crespo. Parece que vão mudar mesmo nome da avenida.

(*) Nessa homenagem tem um pequeno erro, quem sabe ainda passível de correção. É que o nome oficial da escola ficou sendo Renato José da Costa Pacheco, e o nome de batismo de meu pai era Renato José Costa Pacheco, sem o “da”.