domingo, 11 de outubro de 2026

Maioridade

 

Alice Pacheco Fernandes, fruto do casamento da minha filha mais velha, Raissa, com o meu genro Fagner, comemorou nesse 11 de outubro os dezoito anos iniciais de sua vida, que, com a graça de Deus, desejo que seja longa e próspera. Nasceu à noite, naquele já quase distante ano de 2008 na cidade de Porto Velho, capital do Estado de Rondônia, onde todos nós morávamos na época. Logo ali, conforme diriam os mineiros.

 

Naturalmente, desde a sua chegada triunfal tomou conta do pedaço no ambiente familiar e se tornou a princesa querida de diversas gerações, dos mais novos aos mais velhos, de tios, avós e bisavós. Diz a lenda que por causa dela meu coração endurecido ficou mais amoroso e passei a ver o mundo com olhos coloridos e brilhantes. Já maiorzinha, iniciando a falar e andar, conseguia a proeza de me acordar cedinho para ir brincar  com ela na pracinha perto de casa. E eu levantava com total bom humor (hoje em dia, ou eu acordo cedo ou acordo de bom humor. Os dois juntos nem sempre é possível).

 

Agora, adulta, como toda boa libriana, mostra a sua capacidade de liderança e determinação nos objetivos, apesar de ainda acreditar que o mundo gira ao redor dela. Mas, não é de se estranhar, por ser uma característica própria da idade. A juventude é uma fase da vida de muita energia e vontade de fazer, mas o tempo leva ao amadurecimento e à compreensão de que nem tudo é do jeito que a gente quer. Me surpreende, porém, o que não é comum atualmente nas pessoas da mesma faixa etária, como ela é antenada com os acontecimentos nacionais e internacionais, e a sua busca por entender também o passado histórico (andou lendo, por exemplo, a magistral obra As eras, de Eric Hobsbawm).

 

Aluna dedicada e de boas notas, está em preparação para o Enem, e tudo indica que conseguirá ser vitoriosa no seu propósito de se tornar uma futura engenheira mecânica. Ela se lança no mundo como uma flecha de luz solta no universo em que o limite é o espaço infinito e além. Para mim, entretanto, será sempre a minha neta primogênita de lindos cachinhos de ouro.

sábado, 3 de outubro de 2026

Cirurgia

Apesar de meus quase 70 anos de vida somente recentemente me vi pela primeira vez num centro cirúrgico na condição de paciente. Fui fazer uma cirurgia de desvio de septo nasal, ou seja, a popular septoplastia. É um procedimento seguro, de baixo risco e pequena complexidade, tudo por via endoscópica, totalmente por dentro do nariz, sem cortes externos ou cicatrizes.

 

(Parênteses: anos atrás, em Porto Velho, quebrei o úmero e a primeira avaliação foi de que seria necessária uma cirurgia. Fiquei internado, jejum, risco cardíaco, mas uma avaliação posterior descartou a operação. Fiquei 42 dias com o braço numa tipoia, e pronto).

 

Cheguei para a internação, confesso, um tanto ansioso, pois já sabia que haveria uma sedação inicial, seguida de anestesia geral e intubação, o que, sendo leigo no assunto, me deu a impressão de uma coisa perigosa. Porém, fui muito bem recebido pela equipe profissional, tantos os médicos quanto as enfermeiras, e depois de uma descontraída conversa inicial (toda anestesista é meio maluquinho?) só me lembro de acordar quando tudo já havia sido feito.

 

(Nas minhas elocubrações, imaginei que poderia ter uma experiência tipo aquelas de “quase morte” e voltaria com um livro de autoajuda que venderia milhares de exemplares com o relato do meu encontro com Deus e outros seres divinos. Só que não. Dormi igual a uma pedra, até porque a anestesia geral não é um sono natural, mas induz a um estado de inconsciência controlada com total ausência de memórias).

 

Vida que segue. Me senti um pouco fraco e suando frio, talvez por conta de ter ficado mais de 12 horas em jejum, logo eu, que sou um glutão nato. Alimentado, fiquei umas horas em observação e à tarde recebi alta. Vinte e quatro após estou em casa, tendo que ficar uns dias em repouso, medicado e fazendo constantes lavagens do nariz com soro fisiológico. Quase nenhum sangramento. Trinta dias sem esforço físico intenso (tchau, academia).

 

Meus agradecimentos ao Dr. Bruno Caliman (otorrino), ao Dr. Wellington (anestesista), à Flávia (instrumentadora cirúrgica) e também a toda a equipe profissional do hospital da Unimed. “Tá tudo muito bom, tá tudo muito bem”, cantava a extinta banda Blitz, mas na atual existência espero essa que tenha sido a primeira e última experiência cirúrgica da minha vida. A gente ficar fora do ar momentaneamente, mesmo que num ambiente controlado, não me parece que seja uma coisa para se repetir.

 

Cuidemos, pois.


terça-feira, 22 de setembro de 2026

Tentações

 

Um dos livros mais interessante que li recentemente é Cartas de um diabo a seu aprendiz, de C.S. Lewis, mais conhecido por ser também o autor de As crônicas de Nárnia, série de fantasia clássica que deu origem a uma franquia de três filmes, e cuja sequência cinematográfica será lançada mundialmente em fevereiro de 2027.

 

Cartas... foi publicado em 1942 e faz uma sátira, através de 31 correspondências fictícias trocadas entre um demônio experiente e seu sobrinho aprendiz, ao conceito do que é mal ou perverso, subvertendo a lógica de que os grandes problemas da humanidade se concentram em governos corruptos, ditadorezinhos de republiquetas ou traficantes, assassinos e bandidos de todas as matizes.

 

O texto demonstra que, na realidade, às vezes as pessoas se colocam dentro de infernos particulares quando se envolvem em distrações errôneas (por exemplo, apostas ou pornografia), nos atritos domésticos e nas pequenas irritações do cotidiano. Para Lewis, essas são as táticas mais eficazes usadas por Satanás e seus asseclas, atingindo o ser humano em suas fraquezas, vaidades, orgulho e inconstâncias de comportamentos. Nem sempre são pecados escandalosos ou grandes maldades que pesam nas consciências.

 

Pequenas sutilezas e falta de atenção podem levar homens e mulheres por veredas perigosas, que passam desapercebidas, dando à ilusão uma aparência de realidade. Diz o escritor: “O mais seguro é o caminho que leva ao inferno por graus suaves: a encosta suave, macia, sem curvas repentinas, sem marcos sinalizadores, sem beiradas”. E ainda: “Assassinato não é melhor do que jogar cartas, se as cartas servirem para o mesmo propósito”.

 

“Mente vazia, oficina do diabo” é um ditado popular muito conhecido, que resume bem o sentido da obra de Lewis, pois a falta de ocupação facilita bastante o surgimento de pensamentos negativos, ansiedades ou impulsos ruins. Ensina Jesus: “Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; o espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca” (Evangelho de Mateus 26:41).

 

Sempre alerta, pois todo cuidado é pouco.