terça-feira, 22 de setembro de 2026

Tentações

 

Um dos livros mais interessante que li recentemente é Cartas de um diabo a seu aprendiz, de C.S. Lewis, mais conhecido por ser também o autor de As crônicas de Nárnia, série de fantasia clássica que deu origem a uma franquia de três filmes, e cuja sequência cinematográfica será lançada mundialmente em fevereiro de 2027.

 

Cartas... foi publicado em 1942 e faz uma sátira, através de 31 correspondências fictícias trocadas entre um demônio experiente e seu sobrinho aprendiz, ao conceito do que é mal ou perverso, subvertendo a lógica de que os grandes problemas da humanidade se concentram em governos corruptos, ditadorezinhos de republiquetas ou traficantes, assassinos e bandidos de todas as matizes.

 

O texto demonstra que, na realidade, às vezes as pessoas se colocam dentro de infernos particulares quando se envolvem em distrações errôneas (por exemplo, apostas ou pornografia), nos atritos domésticos e nas pequenas irritações do cotidiano. Para Lewis, essas são as táticas mais eficazes usadas por Satanás e seus asseclas, atingindo o ser humano em suas fraquezas, vaidades, orgulho e inconstâncias de comportamentos. Nem sempre são pecados escandalosos ou grandes maldades que pesam nas consciências.

 

Pequenas sutilezas e falta de atenção podem levar homens e mulheres por veredas perigosas, que passam desapercebidas, dando à ilusão uma aparência de realidade. Diz o escritor: “O mais seguro é o caminho que leva ao inferno por graus suaves: a encosta suave, macia, sem curvas repentinas, sem marcos sinalizadores, sem beiradas”. E ainda: “Assassinato não é melhor do que jogar cartas, se as cartas servirem para o mesmo propósito”.

 

“Mente vazia, oficina do diabo” é um ditado popular muito conhecido, que resume bem o sentido da obra de Lewis, pois a falta de ocupação facilita bastante o surgimento de pensamentos negativos, ansiedades ou impulsos ruins. Ensina Jesus: “Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; o espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca” (Evangelho de Mateus 26:41).

 

Sempre alerta, pois todo cuidado é pouco.

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Filosofia popular

O jeito que as pessoas falam, a maneira de compreender a vida e o entendimento de situações as mais diversas trazem embutidas visões surpreendentes, umas até irônicas, mas outras profundamente cheias de significados e reflexões, inclusive porque existe aquele famoso ditado: “A voz do povo é a voz de Deus”.

 

Nas festas, no cotidiano e nas crenças populares a reflexão crítica da população faz um contraponto com o saber acadêmico tradicional, buscando usar palavras simples para explicar ideias complexas, sem observância de cânones ou linguagem complicada.

 

Frases que usamos diuturnamente são exemplos marcantes desse conhecimento, como “Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura” (traduz a ideia da persistência), “Quem vê cara não vê coração” (diferença entre a aparência e a essência verdadeira) e “Mais vale um pássaro na mão do que dois voando” (valorização do aqui e agora).

 

Fiz esse arrodeio todo, porém, tão somente para contar um papo cabeça que tive recentemente com um caboclo nortista, daqueles que foram criados com mamadeira de açaí e caldo de tucupi. De acordo com o insuspeito cidadão, na vida só precisamos de duas coisas: beleza e paciência. Obviamente, perguntei o motivo de tal conclusão. A resposta não tardou:

 

- Quando está tudo bem, beleza.

- Quando não está bem, paciência.

 

Nem precisa dizer mais nada, né mesmo?!


quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Acervo

 

Uns anos atrás, eu e a minha mãe fomos até ao Arquivo Público. Naquela ocasião, com o conhecimento também de meus três irmãos, que não puderam comparecer, fizemos a doação àquela instituição do acervo do professor, jurista, escritor e historiador (entre outras coisas) Renato José Costa Pacheco, que estava sob a guarda do grande amigo Reinaldo Santos Neves. Na mesma data, com a presença do então governador Renato Casagrande e outras figuras ilustres, a família de Milson Henriques fez a entrega também dos documentos e papeis do falecido cartunista, jornalista e ator.

 

Me lembrei disso esses dias e fui atrás de saber o que poderia ter acontecido com todo o conteúdo daquelas dezenas de caixas de papelão. Para a minha grata surpresa, o material já foi todo catalogado e contém, segundo descrição do próprio Arquivo Público: “Conjunto documental relativo à vida acadêmica, profissional de Renato Pacheco. No acervo é possível ter acesso diferentes documentos, como documentos familiares e pessoais, originais de livros, estudos, correspondências, recortes de jornais, materiais didáticos, fotografias, cadernos, resenhas, revistas e manuscritos”.

 

Meu pai guardava tudo – ou quase tudo. Me lembro de ter visto, por exemplo, no escritório dele, uma receita de óculos de 1950. Mas tem muitas outras coisas mais interessantes. Por exemplo: arquivo de Filogônio Pacheco, pai dele e meu avô, que foi tradutor do Porto de Vitória, “com vasta documentação sobre comércio em Vitória nas primeiras décadas do século XX” – são três caixas.

 

Em mais duas caixas estão os cadernos escolares, do primário, ginásio e colegial – anos 40 a 50. Noutras três caixas estão lembranças de viagens à Europa e aos Estados Unidos. Em mais de 20 caixas foram guardados artigos, projetos e textos diversos, inclusive os originais dos romances A Oferta e o Altar, Reino não conquistado, Dias antigos, Porto Final e Cantos de Fernão Ferreiro. Muitas outras estão repletas de correspondências (papai guardava todas as cartas que recebia, bem como cópias de todas as que enviava).

 

O acervo contém ainda muito material didático relacionado à Faculdade de Direito de Vitória, onde encerrou a sua longa carreira no Magistério (mais de 50 anos), tendo sido homenageado, quando morreu, com o nome da biblioteca da FDV. Quem se interessar, pode acessar o seguinte endereço eletrônico: https://ape.es.gov.br/media/PDF/Cat%C3%A1logo%20Renato%20Pacheco.pdf. Boa pesquisa.