segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Finados

 

Tradições milenares desde os primórdios da humanidade cultivam ritos de homenagens e lembranças às pessoas mortas, sejam aquelas mais queridas e próximas até grandes heróis e benfeitores. O catolicismo se apropriou dessas memórias e instituiu um dia – 2 de novembro – para cultuar os que se foram e deixaram saudades.

 

No Brasil, o Dia de Finados tem, para alguns, aquela rotina de visita aos cemitérios, muitas vezes com semblantes carregados de tristezas e amargores pela dor da perda. Quem não tem nada com isso aproveita para vender flores a preços majorados, que secarão em cima das tumbas até o ano seguinte. Muito comércio e mais uma obrigação do que sentimentos, a meu ver.

 

Eu, particularmente, não tenho apego ao luto. Respeito o sofrimento alheio, mas me sinto mais à vontade com o jeito mexicano de vivenciar essa situação. O Dia de Los Muertos em nosso irmão latino celebra a morte de uma maneira leve, considerando-a uma passagem que deve ser comemorada com alegria e cores. É um reencontro dos planos diferentes da vida. Aos ancestrais oferecem-se flores também, mas muita música, danças e alimentos.

 

Dessa maneira, não se coloca tanto peso em situações, reconheço, que nem sempre são fáceis, mas que de acordo com o ponto de vista podem ser superadas com mais facilidade. Nesse sentido, recomendo a animação A vida é uma festa, lançamento de 2017 da Disney/Pixar, que faz um paralelo interessante entre essa dicotomia matéria e espírito.

 

Lembremos e respeitemos nossos mortos, mas vamos em frente porque na longa estrada da vida nossa jornada só termina quando é cumprida. No dizer de Turani & Silvanito, em Jardim da Saudade, composição de João A. Correa e Josias G. Santos: “Tudo na vida se acaba, tudo na vida tem fim, as flores morrem depressa, quem fica mais tempo é o jardim. Podem nascer outras flores, porém também morrerão, no fundo tudo é tristeza, saudade e desilusão. Representamos as flores, o mundo é o jardim da saudade, embora alguém desconheça, essa é a grande verdade. Não adianta o orgulho, no mundo ninguém ficará, até o próprio jardim um dia também passará”.

domingo, 11 de outubro de 2026

Maioridade

 

Alice Pacheco Fernandes, fruto do casamento da minha filha mais velha, Raissa, com o meu genro Fagner, comemorou nesse 11 de outubro os dezoito anos iniciais de sua vida, que, com a graça de Deus, desejo que seja longa e próspera. Nasceu à noite, naquele já quase distante ano de 2008 na cidade de Porto Velho, capital do Estado de Rondônia, onde todos nós morávamos na época. Logo ali, conforme diriam os mineiros.

 

Naturalmente, desde a sua chegada triunfal tomou conta do pedaço no ambiente familiar e se tornou a princesa querida de diversas gerações, dos mais novos aos mais velhos, de tios, avós e bisavós. Diz a lenda que por causa dela meu coração endurecido ficou mais amoroso e passei a ver o mundo com olhos coloridos e brilhantes. Já maiorzinha, iniciando a falar e andar, conseguia a proeza de me acordar cedinho para ir brincar  com ela na pracinha perto de casa. E eu levantava com total bom humor (hoje em dia, ou eu acordo cedo ou acordo de bom humor. Os dois juntos nem sempre é possível).

 

Agora, adulta, como toda boa libriana, mostra a sua capacidade de liderança e determinação nos objetivos, apesar de ainda acreditar que o mundo gira ao redor dela. Mas, não é de se estranhar, por ser uma característica própria da idade. A juventude é uma fase da vida de muita energia e vontade de fazer, mas o tempo leva ao amadurecimento e à compreensão de que nem tudo é do jeito que a gente quer. Me surpreende, porém, o que não é comum atualmente nas pessoas da mesma faixa etária, como ela é antenada com os acontecimentos nacionais e internacionais, e a sua busca por entender também o passado histórico (andou lendo, por exemplo, a magistral obra As eras, de Eric Hobsbawm).

 

Aluna dedicada e de boas notas, está em preparação para o Enem, e tudo indica que conseguirá ser vitoriosa no seu propósito de se tornar uma futura engenheira mecânica. Ela se lança no mundo como uma flecha de luz solta no universo em que o limite é o espaço infinito e além. Para mim, entretanto, será sempre a minha neta primogênita de lindos cachinhos de ouro.

sábado, 3 de outubro de 2026

Cirurgia

Apesar de meus quase 70 anos de vida somente recentemente me vi pela primeira vez num centro cirúrgico na condição de paciente. Fui fazer uma cirurgia de desvio de septo nasal, ou seja, a popular septoplastia. É um procedimento seguro, de baixo risco e pequena complexidade, tudo por via endoscópica, totalmente por dentro do nariz, sem cortes externos ou cicatrizes.

 

(Parênteses: anos atrás, em Porto Velho, quebrei o úmero e a primeira avaliação foi de que seria necessária uma cirurgia. Fiquei internado, jejum, risco cardíaco, mas uma avaliação posterior descartou a operação. Fiquei 42 dias com o braço numa tipoia, e pronto).

 

Cheguei para a internação, confesso, um tanto ansioso, pois já sabia que haveria uma sedação inicial, seguida de anestesia geral e intubação, o que, sendo leigo no assunto, me deu a impressão de uma coisa perigosa. Porém, fui muito bem recebido pela equipe profissional, tantos os médicos quanto as enfermeiras, e depois de uma descontraída conversa inicial (toda anestesista é meio maluquinho?) só me lembro de acordar quando tudo já havia sido feito.

 

(Nas minhas elocubrações, imaginei que poderia ter uma experiência tipo aquelas de “quase morte” e voltaria com um livro de autoajuda que venderia milhares de exemplares com o relato do meu encontro com Deus e outros seres divinos. Só que não. Dormi igual a uma pedra, até porque a anestesia geral não é um sono natural, mas induz a um estado de inconsciência controlada com total ausência de memórias).

 

Vida que segue. Me senti um pouco fraco e suando frio, talvez por conta de ter ficado mais de 12 horas em jejum, logo eu, que sou um glutão nato. Alimentado, fiquei umas horas em observação e à tarde recebi alta. Vinte e quatro após estou em casa, tendo que ficar uns dias em repouso, medicado e fazendo constantes lavagens do nariz com soro fisiológico. Quase nenhum sangramento. Trinta dias sem esforço físico intenso (tchau, academia).

 

Meus agradecimentos ao Dr. Bruno Caliman (otorrino), ao Dr. Wellington (anestesista), à Flávia (instrumentadora cirúrgica) e também a toda a equipe profissional do hospital da Unimed. “Tá tudo muito bom, tá tudo muito bem”, cantava a extinta banda Blitz, mas na atual existência espero essa que tenha sido a primeira e última experiência cirúrgica da minha vida. A gente ficar fora do ar momentaneamente, mesmo que num ambiente controlado, não me parece que seja uma coisa para se repetir.

 

Cuidemos, pois.