quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Acervo

 

Uns anos atrás, eu e a minha mãe fomos até ao Arquivo Público. Naquela ocasião, com o conhecimento também de meus três irmãos, que não puderam comparecer, fizemos a doação àquela instituição do acervo do professor, jurista, escritor e historiador (entre outras coisas) Renato José Costa Pacheco, que estava sob a guarda do grande amigo Reinaldo Santos Neves. Na mesma data, com a presença do então governador Renato Casagrande e outras figuras ilustres, a família de Milson Henriques fez a entrega também dos documentos e papeis do falecido cartunista, jornalista e ator.

 

Me lembrei disso esses dias e fui atrás de saber o que poderia ter acontecido com todo o conteúdo daquelas dezenas de caixas de papelão. Para a minha grata surpresa, o material já foi todo catalogado e contém, segundo descrição do próprio Arquivo Público: “Conjunto documental relativo à vida acadêmica, profissional de Renato Pacheco. No acervo é possível ter acesso diferentes documentos, como documentos familiares e pessoais, originais de livros, estudos, correspondências, recortes de jornais, materiais didáticos, fotografias, cadernos, resenhas, revistas e manuscritos”.

 

Meu pai guardava tudo – ou quase tudo. Me lembro de ter visto, por exemplo, no escritório dele, uma receita de óculos de 1950. Mas tem muitas outras coisas mais interessantes. Por exemplo: arquivo de Filogônio Pacheco, pai dele e meu avô, que foi tradutor do Porto de Vitória, “com vasta documentação sobre comércio em Vitória nas primeiras décadas do século XX” – são três caixas.

 

Em mais duas caixas estão os cadernos escolares, do primário, ginásio e colegial – anos 40 a 50. Noutras três caixas estão lembranças de viagens à Europa e aos Estados Unidos. Em mais de 20 caixas foram guardados artigos, projetos e textos diversos, inclusive os originais dos romances A Oferta e o Altar, Reino não conquistado, Dias antigos, Porto Final e Cantos de Fernão Ferreiro. Muitas outras estão repletas de correspondências (papai guardava todas as cartas que recebia, bem como cópias de todas as que enviava).

 

O acervo contém ainda muito material didático relacionado à Faculdade de Direito de Vitória, onde encerrou a sua longa carreira no Magistério (mais de 50 anos), tendo sido homenageado, quando morreu, com o nome da biblioteca da FDV. Quem se interessar, pode acessar o seguinte endereço eletrônico: https://ape.es.gov.br/media/PDF/Cat%C3%A1logo%20Renato%20Pacheco.pdf. Boa pesquisa.

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Passado, presente e futuro

 

Nesse 19 de agosto, comemora-se uma efeméride instituída pela Lei nº 12.130/2009, que é o Dia Nacional do Historiador. A data foi escolhida numa homenagem ao nascimento, na cidade do Recife, em 1849, do escritor, diplomata e líder abolicionista Joaquim Nabuco. A profissão foi regulamentada pela Lei 14.038/2020.

 

Sou fascinado por esse assunto, e gostaria de ter mais coragem e disposição para voltar aos bancos escolares e fazer o curso de História, coisa que meu saudoso pai, Renato José Costa Pacheco, fez, já com a vida profissional na Magistratura consolidada – diga-se de passagem que ele era também poeta, romancista, contista, folclorista, jurista, sociólogo e professor universitário. Uma mente brilhante, sem dúvida.

 

Enfim, voltando à vaca fria. Esses profissionais são fundamentais para que a gente possa valorizar a nossa identidade coletiva, mantendo viva a memória de acontecimentos passados para que possamos entender a sociedade atual, permitindo a construção de um futuro melhor. Conforme diziam os antigos: “Errar é humano, persistir no erro é burrice”.

 

No campo acadêmico das matérias humanas, a História “é a ciência dos homens no tempo”, definiu o historiador francês Marc Bloch. Para ele, o verdadeiro objeto de estudo dessa disciplina não são os fatos mortos ou as datas isoladas do passado, mas sim a ação viva dos seres humanos em sociedade ao longo dos séculos. No mesmo sentido caminhou o alemão Jörn Rüsen, com seu estudos em teoria da história, metodologia da pesquisa histórica e didática da história.  

 

Saber da existência de dinossauros é importante, mas talvez nem tanto quando entender por que determinado povo age de um jeito ou outro, qual a origem desse ou daquele aspecto cultural, o motivo pelo qual temos um comportamento comum assim ou assado. No nosso caso particular, até que ponto a influência ibérica nos moldou? Somos hoje aquilo o que os nossos antepassados plantaram? E o que seremos em 50 anos, entre telas, robôs e inteligência artificial?

 

Me preocupa ver que muitas pessoas entre 20 e 40 anos não possuem conhecimentos mínimos de História Geral ou de História do Brasil. Aonde isso vai nos levar, não sei, mas acho que seria mais fácil para nossos filhos e netos conhecerem alguma coisa do passado, para entenderem o presente e moldarem o futuro.

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Livros

 

Não sou nenhum especialista em crítica literária, mas de vez em quando me atrevo a fazer alguns comentários a respeito de publicações que me chamaram a atenção. Hoje, quero falar de duas delas, a saber:

 

1)      Carta aos pais, João Luiz Neves Loureiro, Ed. do Autor, 2026

 

O escritor é formado em História, com especialização em Educação e Psicopedagogia. Por vocação, exerce o Magistério em escolas públicas e particulares de Nova Friburgo, no Rio de Janeiro.

 

A obra, com pouco mais de 100 páginas, tem o subtítulo “A força do exemplo na construção de uma sociedade melhor”. O prefácio esclarece: “Meu objetivo é facilitar a caminhada de meus irmãos, para que possam experimentar a paz e a serenidade de cumprir sua missão com louvor, deixando como legado filhos e filhas felizes, pessoas boas e emocionalmente fortes, sementes lançadas para um mundo melhor”.

 

Apesar de às vezes denotar um tom ligeiramente panfletário, João Luiz Neves Loureiro consegue atingir o seu intento, e transmite a sua mensagem de maneira clara e segura, sem tapar o sol com a peneira, e sim demonstrando a sua convicção e a sua firmeza de uma forma a não deixar dúvidas: ou a família se estrutura dentro de uma ética e de uma moral, onde as vidas se construam com base no amor a Deus e no respeito mútuo, ou a degradação social atingirá limites inimagináveis.

 

Todo aquele que acredita na família como um pilar absolutamente essencial à existência de nações em que o ser humano seja o direcionamento principal à vida em comum com paz e progresso deve ler Carta aos pais. É quase um manual para encaminhar na direção do Bem aqueles que “...são os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma...E embora vivam convosco, não vos pertencem...Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas. O arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda a sua força...Pois assim como ele ama a flecha que voa, ama também o arco que permanece estável” (O Profeta, Khalil Gibran).

 

2)      A oligarquia dos poderes e a crise da democracia, Joaquim Falcão, Ed. Intrínseca, 2026

 

Autor de diversos livros, Joaquim Falcão é membro da Academia Brasileira de Letras. Jurista, tem por especialidade o Direito Constitucional.

 

Se a obra anteriormente descrita é um chamamento à vida, ao amor e à alegria, o trabalho de Falcão é um alerta que deve soar nos ouvidos de todos os brasileiros como um sinal fortíssimo de que a República Federativa do Brasil está com as suas engrenagens corroídas pela ferrugem da politicalha, da corrupção e da bandalheira. Adverte, sem meias palavras, que se a oxidação não for combatida a tempo, com os produtos químicos adequados, as colunas já frágeis do nosso ordenamento político-jurídico desabarão inapelavelmente na cabeça de todos nós.

 

Falcão explicitamente demonstra que a independência dos três poderes – Executivo, Legislativo e Judiciário -, idealizada pelo filósofo francês Montesquieu, através do sistema de freios e contrapesos, já tem muito tempo que deixou de existir no Brasil. Para ele, a situação atual é a de que “unidos, os oligarcas capturam a lei pelo texto, pela aplicação e pela interpretação. A lei passa a servir de instrumento de manutenção do status quo e não de transformação. A interesse particulares em vez de públicos. Ao bem individual em vez do público. Ao autobenefício em vez do benefício coletivo. O critério básico das duas regras que unem a Oligarquia dos três Poderes é simples: exercer a competência da interpretação constitucional de tal modo que esta apenas os beneficie e não os prejudique diretamente” (página 72).

 

E mais: “Para tanto, buscando sempre a satisfação de seus autointeresses, os Poderes Estatais fazem um acordo entre si. Um conluio, em que um Poder deixa de controlar o outro, propositadamente, para garantir o mesmo benefício de todas as autoridades. Para se perpetuarem no mando. Aumentarem-se dinheiros, competências, poder” (página 251).

 

Me lembrei de ter ouvido, tempos atrás, um programa radiofônico em que o locutor perguntava aos ouvintes quais eram os três maiores problemas brasileiros. Falou-se em segurança, saúde, educação e outras mazelas. Até que um cidadão mais ácido colocou o dedo na ferida: “Os três problemas são o Executivo, o Legislativo e o Judiciário”.

 

Mas para não dizerem que não falei de flores, cito o grande romancista e dramaturgo pernambucano Ariano Suassuna: “Não sou nem otimista nem pessimista. Os otimistas são ingênuos e os pessimistas, amargos. Sou um realista esperançoso. Sou um homem da esperança”.