sexta-feira, 1 de maio de 2026

Tributo

 

Esse negócio de nascer para depois ficar sabendo que um dia vai morrer é uma das coisas mais complicadas para se ter uma explicação realmente compreensível, seja no campo científico ou através da fé. Às vezes fico pensando que deveríamos saber quando iremos dessa para melhor, tipo dia e hora, mas depois chego à conclusão que criaria uma ansiedade danada. Já pensou quando faltasse um ano, seis meses ou 24 horas? Deus me defenda!

 

Mas, sendo a única certeza absoluta que temos, quando acontece com uma pessoa benquista voltam todas essas indagações e perplexidade ante o inevitável. Nesse 30 de abril de 2026 deixou o plano material a Sra. Heloísa Helena Vellozo Nogueira de Sá, uma prima querida que faria 90 anos de idade no dia 04 de maio. Lolô, como era carinhosamente chamada por todos aqueles que a amavam, era uma das moças mais bonitas da sociedade capixaba de sua época, e fazia sucesso nos bailes sociais do Clube Vitória, no Parque Moscoso. Tinha 21 anos quando eu nasci, em 1957, e se tomou de amores por mim.

 

Me deu meu primeiro apelido – Didigo (meu nome de batismo é Rodrigo) – e guardou em sua memória todas aquelas bobagens que as crianças falam e que os familiares acham lindo. Aliás, era também um arquivo vivo de toda a história de nossos antepassados, bem como de seus descendentes. Nosso último encontro, há pouco mais de dois meses, foi no aniversário da filha de uma sobrinha, e cometi uma descortesia lamentável, achando que estava fazendo uma brincadeira superengraçada. Perguntei se ela ainda sabia quem eu sou. Naturalmente, como era de seu estilo, de quem não tinha arrodeios e nem duas caras, me mandou tomar alguma coisa em algum lugar. E passou o resto da festa reclamando de minha grosseria. Se arrependimento matasse, eu teria morrido ali mesmo. Pedi desculpas, e espero que tenham sido aceitas, senão é sujeito ela qualquer noite dessas aparecer e puxar o meu pé.

 

Lolô e minha mãe, Tildinha, tinham uma relação bem peculiar. Adoravam implicar uma com a outra, mas se amavam profundamente. Em vez de tia e sobrinha, pareciam duas irmãs. Lolô frequentemente passava temporadas na casa dela, ali na Mata da Praia, em Vitória. Curiosamente, quando minha mãe acordava, logo cedo de manhã, Lolô estava indo se deitar, após mais uma noite insone, acompanhada de seu notebook, do cigarro, que nunca abandonou desde a juventude, e de um ou dois cálices de gim. Viveu intensamente. Acredito que tenha ido em paz.

 

“Assim os dias passarão/virão as novas gerações/outras perguntas, prováveis canções/outro mundo, outra gente, outras dimensões/e na hora marcada, em algum lugar/uma estrela virá para lhe acompanhar” (Assim os dias passarão, Almir Sater e Renato Teixeira).

 

Que Deus a receba em sua morada.

domingo, 8 de março de 2026

Tá no lucro

 

O cidadão  já avançado em vivências e experiências, inclusive um matrimônio que não deu certo, mas ainda bem conservado e musculoso, apesar da calva brilhante que ostentava sem preconceito, alimentava uma vontade: conseguir uma mulher para dividir a escova de dentes, além de outras cositas más, até, quem sabe, em momentos de carnal inspiração, fazer um calamengau.

 

Arriscou com uma, arriscou com outra, mas ainda não tinha conseguido ter aquele match poderoso, tipo amor à primeira vista, mesmo que a adolescência tenha ficado para trás faz tempo. Finalmente, após muitos erros e poucos acertos, se encontrou com uma morena cor de jambo, praticamente da mesma faixa etária, que também buscava alguém para compartilhar sonhos e pensamentos.

 

Conversa vai, conversa vem e resolveram juntar os paninhos. Foram para debaixo do mesmo teto. Como se estivessem novamente no pleno vigor dos 20 e poucos anos, transformaram todos os cantos da casa em um ninho de amor. O fogo ardente da paixão laborava com intensidade, mas a idade cobra o seu preço e todo esse ímpeto arrefeceu depois de poucos meses. A rotina se instalou, como é comum acontecer com todos, ou pelo menos a grande maioria, dos casais.

 

Entendeu que tinha que se acostumar com essas regras da convivência a dois quando numa determinada noite, ao voltar para o lar, doce lar após um dia exaustivo de trabalho, percebeu que não havia comida pronta. Reclamou: “Você não fez o jantar?”. Como se fosse uma repentista nordestina que não manda recado, a esperta balzaquiana respondeu na lata:

 

- Até um dia desses você não tinha nem mulher, e agora está querendo jantar! Tá no lucro, meu filho!

_____________________________________________________________________________

Não gosto de fazer proselitismo político, mas para quem quer entender um pouco o caos institucional em que está o Brasil, com problemas nos 3 Poderes, a jornalista Míriam Leitão, na coluna de hoje (08/03/26) em O GLOBO, intitulada “O caso Master consome o país”, debulha o imbróglio. Recomendo.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Kombis

 

A imprensa inteira repercutiu o presente que Neymar Pai deu para Neymar Júnior: uma kombi super estilizada, cheio de acessórios e mimos dos mais variados, a exemplo da cor original da Volkswagen azul Danúbio, televisão de 43 polegadas, teto solar, acabamento em couro com os nomes da família bordados, volante especial e sistema de som com CarPlay. O veículo, que é o mesmo no qual o então jovem craque era levado aos treinos, tem até nome, Filomena, e está avaliado em 270 mil reais.

 

Me lembrei que na minha infância meu saudoso pai também possuiu uma Kombi. Na verdade, duas. Família grande – casal e mais 4 filhos – acho que era a única opção de algo parecido com um SUV que havia na época, pelo menos dos carros fabricados no Brasil. Na época, salvo engano, morávamos em Guaçuí.

 

Não me lembro bem da primeira Kombi, mas a segunda era metade vermelha e metade branca, com umas cortininhas nas janelas, o que era considerado um luxo. Tinha até cinzeiros. E forro no teto, além de isolamento acústico, porque o motor traseiro refrigerado a ar era bem barulhento. Nela, fizemos uma viagem de férias pelas cidades históricas de Minas Gerais – Ouro Preto, Diamantina, Mariana, Congonhas e Tiradentes. A perua aguentou bem o tranco. Fomos também na Gruta do Maquiné, em Cordisburgo, cidade natal do escritor, médico e diplomata Guimarães Rosa.

 

Nos meus olhos juvenis era tudo uma maravilha. E achei sensacional ficar hospedado em hotéis, o que foi uma novidade sem igual. Muitos anos depois, quando ainda morava em Porto Velho/RO, numa das visitas de papai, alugamos uma Kombi e curtimos boas lembranças, passeando nós seis: eu, ele, minha esposa e três filhas/netas.

 

Se eu já não estivesse com tanta preguiça de dirigir nessas ruas esburacadas (o que muito me incomoda também são os motoqueiros abusados), acho que arrumaria uma Kombi motorhome e daria um rolezinho pelas vizinhanças, junto com meu bem-querer. Quem sabe!