quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Filosofia popular

O jeito que as pessoas falam, a maneira de compreender a vida e o entendimento de situações as mais diversas trazem embutidas visões surpreendentes, umas até irônicas, mas outras profundamente cheias de significados e reflexões, inclusive porque existe aquele famoso ditado: “A voz do povo é a voz de Deus”.

 

Nas festas, no cotidiano e nas crenças populares a reflexão crítica da população faz um contraponto com o saber acadêmico tradicional, buscando usar palavras simples para explicar ideias complexas, sem observância de cânones ou linguagem complicada.

 

Frases que usamos diuturnamente são exemplos marcantes desse conhecimento, como “Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura” (traduz a ideia da persistência), “Quem vê cara não vê coração” (diferença entre a aparência e a essência verdadeira) e “Mais vale um pássaro na mão do que dois voando” (valorização do aqui e agora).

 

Fiz esse arrodeio todo, porém, tão somente para contar um papo cabeça que tive recentemente com um caboclo nortista, daqueles que foram criados com mamadeira de açaí e caldo de tucupi. De acordo com o insuspeito cidadão, na vida só precisamos de duas coisas: beleza e paciência. Obviamente, perguntei o motivo de tal conclusão. A resposta não tardou:

 

- Quando está tudo bem, beleza.

- Quando não está bem, paciência.

 

Nem precisa dizer mais nada, né mesmo?!


quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Acervo

 

Uns anos atrás, eu e a minha mãe fomos até ao Arquivo Público. Naquela ocasião, com o conhecimento também de meus três irmãos, que não puderam comparecer, fizemos a doação àquela instituição do acervo do professor, jurista, escritor e historiador (entre outras coisas) Renato José Costa Pacheco, que estava sob a guarda do grande amigo Reinaldo Santos Neves. Na mesma data, com a presença do então governador Renato Casagrande e outras figuras ilustres, a família de Milson Henriques fez a entrega também dos documentos e papeis do falecido cartunista, jornalista e ator.

 

Me lembrei disso esses dias e fui atrás de saber o que poderia ter acontecido com todo o conteúdo daquelas dezenas de caixas de papelão. Para a minha grata surpresa, o material já foi todo catalogado e contém, segundo descrição do próprio Arquivo Público: “Conjunto documental relativo à vida acadêmica, profissional de Renato Pacheco. No acervo é possível ter acesso diferentes documentos, como documentos familiares e pessoais, originais de livros, estudos, correspondências, recortes de jornais, materiais didáticos, fotografias, cadernos, resenhas, revistas e manuscritos”.

 

Meu pai guardava tudo – ou quase tudo. Me lembro de ter visto, por exemplo, no escritório dele, uma receita de óculos de 1950. Mas tem muitas outras coisas mais interessantes. Por exemplo: arquivo de Filogônio Pacheco, pai dele e meu avô, que foi tradutor do Porto de Vitória, “com vasta documentação sobre comércio em Vitória nas primeiras décadas do século XX” – são três caixas.

 

Em mais duas caixas estão os cadernos escolares, do primário, ginásio e colegial – anos 40 a 50. Noutras três caixas estão lembranças de viagens à Europa e aos Estados Unidos. Em mais de 20 caixas foram guardados artigos, projetos e textos diversos, inclusive os originais dos romances A Oferta e o Altar, Reino não conquistado, Dias antigos, Porto Final e Cantos de Fernão Ferreiro. Muitas outras estão repletas de correspondências (papai guardava todas as cartas que recebia, bem como cópias de todas as que enviava).

 

O acervo contém ainda muito material didático relacionado à Faculdade de Direito de Vitória, onde encerrou a sua longa carreira no Magistério (mais de 50 anos), tendo sido homenageado, quando morreu, com o nome da biblioteca da FDV. Quem se interessar, pode acessar o seguinte endereço eletrônico: https://ape.es.gov.br/media/PDF/Cat%C3%A1logo%20Renato%20Pacheco.pdf. Boa pesquisa.

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Passado, presente e futuro

 

Nesse 19 de agosto, comemora-se uma efeméride instituída pela Lei nº 12.130/2009, que é o Dia Nacional do Historiador. A data foi escolhida numa homenagem ao nascimento, na cidade do Recife, em 1849, do escritor, diplomata e líder abolicionista Joaquim Nabuco. A profissão foi regulamentada pela Lei 14.038/2020.

 

Sou fascinado por esse assunto, e gostaria de ter mais coragem e disposição para voltar aos bancos escolares e fazer o curso de História, coisa que meu saudoso pai, Renato José Costa Pacheco, fez, já com a vida profissional na Magistratura consolidada – diga-se de passagem que ele era também poeta, romancista, contista, folclorista, jurista, sociólogo e professor universitário. Uma mente brilhante, sem dúvida.

 

Enfim, voltando à vaca fria. Esses profissionais são fundamentais para que a gente possa valorizar a nossa identidade coletiva, mantendo viva a memória de acontecimentos passados para que possamos entender a sociedade atual, permitindo a construção de um futuro melhor. Conforme diziam os antigos: “Errar é humano, persistir no erro é burrice”.

 

No campo acadêmico das matérias humanas, a História “é a ciência dos homens no tempo”, definiu o historiador francês Marc Bloch. Para ele, o verdadeiro objeto de estudo dessa disciplina não são os fatos mortos ou as datas isoladas do passado, mas sim a ação viva dos seres humanos em sociedade ao longo dos séculos. No mesmo sentido caminhou o alemão Jörn Rüsen, com seu estudos em teoria da história, metodologia da pesquisa histórica e didática da história.  

 

Saber da existência de dinossauros é importante, mas talvez nem tanto quando entender por que determinado povo age de um jeito ou outro, qual a origem desse ou daquele aspecto cultural, o motivo pelo qual temos um comportamento comum assim ou assado. No nosso caso particular, até que ponto a influência ibérica nos moldou? Somos hoje aquilo o que os nossos antepassados plantaram? E o que seremos em 50 anos, entre telas, robôs e inteligência artificial?

 

Me preocupa ver que muitas pessoas entre 20 e 40 anos não possuem conhecimentos mínimos de História Geral ou de História do Brasil. Aonde isso vai nos levar, não sei, mas acho que seria mais fácil para nossos filhos e netos conhecerem alguma coisa do passado, para entenderem o presente e moldarem o futuro.