Esse negócio de nascer para
depois ficar sabendo que um dia vai morrer é uma das coisas mais complicadas
para se ter uma explicação realmente compreensível, seja no campo científico ou
através da fé. Às vezes fico pensando que deveríamos saber quando iremos dessa
para melhor, tipo dia e hora, mas depois chego à conclusão que criaria uma ansiedade
danada. Já pensou quando faltasse um ano, seis meses ou 24 horas? Deus me
defenda!
Mas, sendo a única certeza
absoluta que temos, quando acontece com uma pessoa benquista voltam todas essas
indagações e perplexidade ante o inevitável. Nesse 30 de abril de 2026 deixou o
plano material a Sra. Heloísa Helena Vellozo Nogueira de Sá, uma prima querida
que faria 90 anos de idade no dia 04 de maio. Lolô, como era carinhosamente
chamada por todos aqueles que a amavam, era uma das moças mais bonitas da
sociedade capixaba de sua época, e fazia sucesso nos bailes sociais do Clube
Vitória, no Parque Moscoso. Tinha 21 anos quando eu nasci, em 1957, e se tomou
de amores por mim.
Me deu meu primeiro apelido –
Didigo (meu nome de batismo é Rodrigo) – e guardou em sua memória todas aquelas
bobagens que as crianças falam e que os familiares acham lindo. Aliás, era
também um arquivo vivo de toda a história de nossos antepassados, bem como de
seus descendentes. Nosso último encontro, há pouco mais de dois meses, foi no
aniversário da filha de uma sobrinha, e cometi uma descortesia lamentável,
achando que estava fazendo uma brincadeira superengraçada. Perguntei se ela
ainda sabia quem eu sou. Naturalmente, como era de seu estilo, de quem não
tinha arrodeios e nem duas caras, me mandou tomar alguma coisa em algum lugar. E
passou o resto da festa reclamando de minha grosseria. Se arrependimento
matasse, eu teria morrido ali mesmo. Pedi desculpas, e espero que tenham sido
aceitas, senão é sujeito ela qualquer noite dessas aparecer e puxar o meu pé.
Lolô e minha mãe, Tildinha,
tinham uma relação bem peculiar. Adoravam implicar uma com a outra, mas se
amavam profundamente. Em vez de tia e sobrinha, pareciam duas irmãs. Lolô
frequentemente passava temporadas na casa dela, ali na Mata da Praia, em
Vitória. Curiosamente, quando minha mãe acordava, logo cedo de manhã, Lolô
estava indo se deitar, após mais uma noite insone, acompanhada de seu notebook,
do cigarro, que nunca abandonou desde a juventude, e de um ou dois cálices de
gim. Viveu intensamente. Acredito que tenha ido em paz.
“Assim os dias passarão/virão
as novas gerações/outras perguntas, prováveis canções/outro mundo, outra gente,
outras dimensões/e na hora marcada, em algum lugar/uma estrela virá para lhe
acompanhar” (Assim os dias passarão, Almir Sater e Renato Teixeira).
Que Deus a receba em sua morada.