Tradições milenares desde os primórdios da humanidade cultivam ritos de homenagens e lembranças às pessoas mortas, sejam aquelas mais queridas e próximas até grandes heróis e benfeitores. O catolicismo se apropriou dessas memórias e instituiu um dia – 2 de novembro – para cultuar os que se foram e deixaram saudades.
No Brasil, o Dia de Finados tem, para alguns, aquela rotina de visita aos cemitérios, muitas vezes com semblantes carregados de tristezas e amargores pela dor da perda. Quem não tem nada com isso aproveita para vender flores a preços majorados, que secarão em cima das tumbas até o ano seguinte. Muito comércio e mais uma obrigação do que sentimentos, a meu ver.
Eu, particularmente, não tenho apego ao luto. Respeito o sofrimento alheio, mas me sinto mais à vontade com o jeito mexicano de vivenciar essa situação. O Dia de Los Muertos em nosso irmão latino celebra a morte de uma maneira leve, considerando-a uma passagem que deve ser comemorada com alegria e cores. É um reencontro dos planos diferentes da vida. Aos ancestrais oferecem-se flores também, mas muita música, danças e alimentos.
Dessa maneira, não se coloca tanto peso em situações, reconheço, que nem sempre são fáceis, mas que de acordo com o ponto de vista podem ser superadas com mais facilidade. Nesse sentido, recomendo a animação A vida é uma festa, lançamento de 2017 da Disney/Pixar, que faz um paralelo interessante entre essa dicotomia matéria e espírito.
Lembremos e respeitemos nossos mortos, mas vamos em frente porque na longa estrada da vida nossa jornada só termina quando é cumprida. No dizer de Turani & Silvanito, em Jardim da Saudade, composição de João A. Correa e Josias G. Santos: “Tudo na vida se acaba, tudo na vida tem fim, as flores morrem depressa, quem fica mais tempo é o jardim. Podem nascer outras flores, porém também morrerão, no fundo tudo é tristeza, saudade e desilusão. Representamos as flores, o mundo é o jardim da saudade, embora alguém desconheça, essa é a grande verdade. Não adianta o orgulho, no mundo ninguém ficará, até o próprio jardim um dia também passará”.