sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Altas ondas

 

Acostumado a pisar em terra firme e a não entrar na água além do limite da altura do umbigo, resolvi aceitar o convite de um amigo para dar um passeio pela orla marítima de Guarapari, desde o Canal até as Três Praias, a bordo de uma pequena mas potente lancha com capacidade para oito pessoas sem contar o capitão da embarcação, no caso, o próprio proprietário.

 

Logo na saída da marina, em Perocão, fomos surpreendidos por uma pane seca, e ficamos parados uns tantos minutos aguardando outra embarcação trazer combustível para fazer o reabastecimento. Início promissor, para não dizer o contrário. O mar estava calmo, com pouco vento e, na sequência, chegamos logo ao primeiro ponto turístico: 3 Praias.

 

Na verdade paramos naquela que é considerada a segunda das três praias, onde um grupo de amigos nos esperava. Fiquei na areia enquanto esses outros convidados davam um giro. Na volta, já mais vermelho do que camarão, passamos em frente à praia do Morro até o Canal sob a ponte que interliga o centro da cidade aos bairros.

 

Quando retornávamos à marina, eis que novamente acabou a gasolina da lancha. Dessa vez o vento soprava com maior intensidade, e o socorro demorou. Com isso, a marola que balançava o barco começou a me enjoar (devia ter tomado um remedinho, mas fiquei com medo de ter sono). Estava também de estômago vazio. Graças a Deus conseguimos aportar antes que eu tivesse que entornar o caldo.

 

Resumindo: apesar de a visão do mar para a terra ser das mais interessantes, com uma nova perspectiva de locais onde anteriormente havia andado tão somente a pé, cheguei à conclusão de que não nasci para ser marinheiro. “Quem é do mar não enjoa”, já cantava o veterano sambista Martinho da Vila, mas minha “praia” mesmo é o velho e bom chão firme.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Varandas

 

É de amplo conhecimento público que Guarapari, nesta época do ano, principalmente depois do Natal e até o Carnaval, é invadido por hordas de turistas de muitas outras localidades, mas principalmente aqueles oriundos das Minas Gerais. Fala-se até de um acréscimo populacional, ao longo da temporada, de mais de 1 milhão de pessoas.

 

Prédios inteiros, que passam o restante do ano com poucos habitantes, são ocupados de cima a baixo, superlotando garagens e apartamentos. Da minha sala, ponto de observação discreto, acompanho de longe, quando não estou me ocupando com nada melhor, o movimento de 24 varandas do outro lado da rua, que na baixa temporada só servem, em sua ampla maioria, para acumular poeira. Impossível não olhar, até porque, imagino, eventualmente posso estar sendo olhado também.

 

São pessoas de todas as cores e idades, com seus hábitos e horários distintos. Um solitário senhor de bigode ao estilo do humorista mexicano Cantinflas, logo cedo senta-se numa cadeira de alumínio a pitar um cigarro. Um pouco mais no alto, uma família se movimenta com apetrechos de praia. À esquerda, um casal de idosos limpa vidraças e janelas. Em outra, aciona-se um Mop numa mão e em outra atualiza-se a mensagem do celular.

 

Em duas delas uma rede atrai a preguiça após um banho de mar. Uma outra virou depósito, com tralhas diversas, desde uma churrasqueira enferrujada até cadeiras amontoadas entre pedaços de compensado. Poucas, talvez três, possuem vasos de plantas. Acho que são dos moradores fixos, porque ninguém vai ficar carregando essas espécies vegetais ornamentais de um lado para o outro.

 

Um ponto em comum são os varais. Diuturnamente é aquela faina de estender ao Sol calças, camisas, toalhas e até roupas íntimas, que são recolhidas ao cair da tarde. Uma varanda, com seus vidros quase sempre fechados e indevassáveis, não deixa passar nada, somente a luz opaca de uma lâmpada acesa. Nas horas matinais, em outro ponto, uma senhora tricota o seu crochê, tendo ao lado uma jovem que beberica tranquilamente uma xícara de café ou alguma outra coisa.

 

Fico imaginando o que faz tanta gente deixar os seus lares para um acampamento, por assim dizer, um tanto improvisado, onde a impressão que fica é que a rotina diária é intensificada, com as demandas que uma temporada de férias trazem. Será que voltam para casa descansados ou mais cansados ainda? Mas acho que gostam, porque todo ano voltam. Sejamos felizes.

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Dia de Reis

 

Conclui-se hoje, 6 de Janeiro, o ciclo natalino iniciado com a data consagrada ao nascimento do Menino Deus, em 25 de dezembro, e a festa do Ano Novo, na noite de 31 para 1º.

 

A tradição cristã relembra a visita dos Reis Magos – Baltazar, Belchior e Gaspar - até Belém, quando se apresentaram a Jesus com as oferendas de ouro, incenso e mirra, após uma jornada de 12 dias guiados pela Estrela do Oriente.

 

 O Evangelho de Mateus (2:1-12) relata: “¹ Depois que Jesus nasceu em Belém da Judéia, nos dias do rei Herodes, magos vindos do Oriente chegaram a Jerusalém² e perguntaram: "Onde está o recém-nascido rei dos judeus? Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo".³ Quando o rei Herodes ouviu isso, ficou perturbado, e com ele toda a Jerusalém.⁴ Tendo reunido todos os chefes dos sacerdotes do povo e os mestres da lei, perguntou-lhes onde deveria nascer o Cristo.⁵ E eles responderam: "Em Belém da Judéia; pois assim escreveu o profeta:⁶ ‘Mas tu, Belém, da terra de Judá, de forma alguma és a menor entre as principais cidades de Judá; pois de ti virá o líder que, como pastor, conduzirá Israel, o meu povo’ ".⁷ Então Herodes chamou os magos secretamente e informou-se com eles a respeito do tempo exato em que a estrela tinha aparecido.⁸ Enviou-os a Belém e disse: "Vão informar-se com exatidão sobre o menino. Logo que o encontrarem, avisem-me, para que eu também vá adorá-lo".⁹ Depois de ouvirem o rei, eles seguiram o seu caminho, e a estrela que tinham visto no Oriente foi adiante deles, até que finalmente parou sobre o lugar onde estava o menino.¹⁰ Quando tornaram a ver a estrela, encheram-se de júbilo.¹¹ Ao entrarem na casa, viram o menino com Maria, sua mãe, e, prostrando-se, o adoraram. Então abriram os seus tesouros e lhe deram presentes: ouro, incenso e mirra.¹² E, tendo sido advertidos em sonho para não voltarem a Herodes, retornaram a sua terra por outro caminho”.

 

Considera-se esse momento a primeira revelação de Jesus ao mundo não-judaico, ou seja, aos gentios, mostrando-O como Salvador de toda a humanidade, uma vez que os sábios que o visitaram eram de diferentes origens étnicas – Melchior (Pérsia), Gaspar (Índia) e Baltazar (Arábia).

 

Possamos nós também, aqueles que creem num Só Deus Verdadeiro, que reina no Céu e na Terra, reconhecer no Filho do Homem a sua Eternidade, o Pão da Vida, o Verbo Encarnado, o Princípio e o Fim, o Bom Pastor, o Rei dos Reis, a Luz do Mundo, e que as suas boas aventuranças estejam sempre a nos guiar no caminho da salvação, nos libertando de todas as maledicências e nos conduzindo à casa do Pai.

 

“O cego viu, o côxo caminhou/O mudo de nascença falou/Quando Jesus andou aqui/Jesus o Bom Pastor da casa de David/Aleluia, aleluia, aleluia” (Noite de Santos Reis, Elomar).

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Resoluções

 

Entra ano, sai ano e as coisas meio que se repetem. Esperanças renovadas, tudo mundo sonha com dias melhores, mais saúde e prosperidade e sem esquecer, obviamente, da Mega da Virada. Dois mil e vinte e seis chegou chegando, trazendo em seu bojo, além do bafo quente do verão, todo aquele sentimento de que agora será diferente. E tome listinha de coisas a se fazer, e outras daquilo que não se pretende fazer mais.

 

No meu caso, espalhei aos quatro ventos que vou cuidar melhor da minha saúde, prometendo uma reeducação alimentar severa, que inclui três procedimentos básicos a começar da zero hora do dia 1º de janeiro, a saber: não tomar refrigerantes, não comer glúten e não comer açúcar. Só isso. Nos dias que antecederam ao réveillon esses comandos mentais pareciam fáceis e plenamente plausíveis. Confesso que estou com medo de ter exagerado na dose, mas até aqui está tudo bem. Estou cumprindo à risca o prometido. Conforme diriam os gringos: So far, so good.

 

Um amigo meu, porém, foi mais realista. Também preocupado com o sobrepeso e com aquelas gordurinhas viscerais e danos cardíacos dos excessos à mesa, jurou de pé junto que, em 2026, não colocará na boca nenhum pedaço de berinjela, chuchu ou jiló. Quiabo só de vez em quando. Coca-Cola zero açúcar nem pensar. Sorvetes e doces em geral apenas após as principais refeições. Fez até um mantra pedindo a Deus força e resistência para cumprir seus objetivos. Esse tem o pé no chão.

 

Brincadeiras à parte, tudo que a gente puder fazer, seriamente, em prol do nosso próprio beneficio é um dia, ou uma semana ou alguns meses a mais que ganhamos para ter uma vida o mais saudável possível, porque apesar dos pesares ter a oportunidade de conviver mais tempo com nossos familiares e amigos alegra a nossa existência. E vamos em frente, porque o ano está só começando. Que venham os próximos 364 dias.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Incompetência

 

Gente, eu, quando comecei esse blog, não tinha a mínima intenção de falar a respeito de futebol, pois este é um assunto que envolve muitas paixões e nem sempre é possível conversar com os torcedores de outros times dentro de uma serenidade lógica.

 

Desde criança que sou torcedor do Flamengo. Já tive períodos, quando mais jovem, de chorar ao ver um campeonato perdido; depois, passei a acompanhar sem muito interesse; atualmente, talvez por causa dos meus quase 70 anos, comecei a me envolver mais um pouco.

 

Essa tal da Copa Intercontinental não sei se vale muita coisa ou se seria somente mais um torneio de somenos importância na história dos clubes envolvidos. Considerar um “campeonato mundial” é forçar a barra, a meu ver. Mas esse jogo do Mengo com o PSG foi de lascar o cano, por isso resolvi dar uma de comentarista esportivo.

 

A equipe carioca, data vênia, deu sorte. O goleiro Rossi, cantado em prosa e verso após a Libertadores, estava mais nervoso do que pai de primeira viagem na maternidade. O time francês, por sua vez, cozinhava a partida em banho-maria, como se não tivesse interesse em fazer gol e a decisão de ir para as famosas penalidades máximas fosse uma opção tática.

 

Aí o Filipe Luís, que muitos acham um gênio futebolístico, inventou mais uma das suas (o cara tem essa mania: faz as substituições das mais esquisitas, como se fosse uma mágica que só ele entende) e tirou Jorginho e Arrascaeta, sabendo que iria precisar deles se houvessem pênaltis, e de fato houveram. Estavam cansados, diriam. Ora, no último jogo do ano, valendo taça, tem que ter sangue no olho para correr além do necessário. Profissional entendo que é assim.

 

Nas cobranças dos pênaltis foi aquele fiasco. Quatro defesas do goleiro russo Safonov, uma surpresa  na escalação do técnico Luis Enrique, pois ele não é o titular. No meu modo de ver, porém, Saúl, Pedro, Léo Pereira e Luiz Araújo foram incrivelmente displicentes e praticamente empurraram a bola levemente, facilitando extremamente o trabalho do adversário. Em português claro: incompetência. Deviam ter as férias suspensas e obrigados a passar um mês treinando cobranças de pênaltis, de manhã e à tarde. Pronto, desabafei.

 

Bom, voltando a falar de coisas mais sérias, aproveito o ensejo para desejar Feliz Natal e Próspero Ano Novo. Voltarei em 2026. Tudo de bom e abraços fraternos. Felicidades para todos.

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Dor, alegria.....vida

 

Diz um amigo meu que a alegria vem pela dor, quando se vence uma dificuldade ou se supera um infortúnio ou se alcança um perdão e aquela sensação de alívio traz um conforto e nos alegra. Mas às vezes não é tão fácil quanto possa parecer.

 

Um casal de amigos recentemente quebrou o compromisso conjugal, por motivos que não cabe aqui comentar. Cada um para um lado. Quatro filhos ainda menores de idade surpreendidos por uma decisão que ninguém imaginava, nem mesmo nós, aqueles que eram do círculo mais próximo.

 

Adolescentes e crianças sofrendo, cônjuges magoados, amigos sem entender direito o que aconteceu. Sentimentos generalizados de que o coração das pessoas é terra de ninguém. Difícil encontrar palavras de conforto, nada muito além do óbvio.

 

O jeito é continuar vivendo, na esperança de dias melhores, pois as dificuldades fazem parte das provações que enfrentamos nesse mundão de meu Deus. Acreditar que o tempo irá cicatrizar as feridas ora abertas, mesmo que a cura não seja como um passe de mágica, mas dependa de esforço pessoal, aceitação e coragem.

 

As experiências são as lições que carregamos ao longo da nossa existência, transformando dor em aprendizado e em sabedoria para que, no nosso próprio ritmo, seja alcançada a superação de qualquer mazela por maior que possa parecer num primeiro momento.

 

Afinal, cada um é responsável por suas escolhas e pelo seu plantio. E cada um que faça a sua própria colheita, seja ele de espinhos ou de flores. Perdoemos. Nos alegremos. Não há mal que sempre dure, e a vida está aí à nossa frente para que vivamos e façamos a nossa própria história, com as bênçãos divinas.

 

No dizer do escritor francês Victor Hugo: “O tempo não só cura, mas também reconcilia”. Sigamos em paz.

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Rio Doce

 

Eis que o noticiário amanhece cheio de notícias a respeito dos 10 anos da tragédia de Mariana, quando uma barragem da empresa Samarco rompeu na localidade de Fundão e despejou toneladas de rejeitos de mineração nas comunidades próximas e nas águas do rio Doce, matando 19 pessoas, destruindo vilarejos e provocando um desastre ambiental que ainda não teve a devida reparação, e talvez nem tenha.

 

Uma década depois ninguém foi condenado pelo ocorrido. Alguns bilhões, dizem, foram aplicados em reparação ambiental, mas estudiosos garantem que a bacia hidrográfica da região está com sua biodiversidade irremediavelmente afetada. Em alguns locais, como no subdistrito de Bento Rodrigues, quantidades enormes de lama ainda ocupam ruas e casas, que foram abandonadas pelos antigos moradores.

 

Nas vésperas da COP 30, em Belém, onde lideranças mundiais almejam alcançar algum tipo de acordo para evitar danos cada vez maiores ao clima e à natureza de uma maneira em geral, é sintomático que o Brasil permaneça tendo esse passivo, em que populações inteiras tiveram suas vidas transformadas abruptamente para pior e sem perspectiva de algum tipo de compensação digna.

 

Em paralelo a essa efeméride negativa, leio outra matéria também a respeito do rio Doce, no trecho em que ele atravessava a cidade de Aimorés, em Minas Gerais, na divisa com o Espírito Santo. Anos atrás o curso de água, que passava no centro urbano, onde havia até um calçadão e área de lazer, foi desviado para construção de uma hidrelétrica. Atualmente restaram tão somente pedras e poças onde proliferam mosquitos e cobras. A prometida indenização ficou no papel, o que não causa estranheza, data vênia.

 

É triste. Fico a pensar em quão inglória é a luta de nossos ecologistas, que vivem de pequenas vitórias, mas quando a briga é com os cachorros grandes dos conglomerados econômicos ficam a ver navios. Em Rondônia, por exemplo, nos 34 anos em que morei por lá, vivenciei o avanço da pecuária e do agronegócio num desmatamento acelerado e incontrolável, que não tem mais volta.

 

Não quero parecer pessimista, mas se nada for feito, urgentemente, é capaz de chegarmos ao ponto de conhecermos rios, florestas e animais só de ouvir falar, sem contar o aumento da temperatura global. O que tiver de ser, será. Mas vamos nos preparando, tá!